#RPSP 23/05/2025
Gênesis 37 / O Deus que age no fundo do poço
“Viram-no de longe e, antes que chegasse, conspiraram contra ele para o matar.” (Gn 37:18)

O capítulo 37 inicia uma nova seção em Gênesis: a história de José. Ele é o elo entre o patriarca Jacó e o Egito, onde a providência divina será revelada em meio a injustiças, sonhos e restauração.
Aqui, a promessa parece ameaçada não por inimigos externos, mas por conflitos internos. A família escolhida se mostra fraturada, invejosa, e até mesmo violenta. Mas Deus já está escrevendo Sua história, ainda que ela comece no fundo de um poço.
“José tinha dezessete anos…” (v.2)
A juventude de José contrasta com a gravidade dos eventos. Ainda inexperiente, ele vive numa casa marcada por favoritismo, rivalidade entre irmãos e ausência de correção paternal.
“Israel amava mais a José do que a todos os seus filhos…” (v.3)
A repetição do favoritismo que já havia causado tensões entre Jacó, Esaú, Raquel e Lia agora se repete com os filhos. A túnica colorida (túnica talar ou de mangas compridas) simbolizava autoridade, distinção e preferência.
“Seus irmãos o odiavam…” (v.4)
O termo usado no hebraico (שָׂנֵא / sanê) é forte. O ódio aumenta a cada versículo: por causa da túnica, dos sonhos e da arrogância percebida.
“Tive um sonho…” (v.5)
Os dois sonhos de José (feixes se curvando e o sol, lua e estrelas se inclinando) são proféticos. Revelam o plano de Deus de exaltar José acima dos irmãos. Mas a forma como ele compartilha esses sonhos, sem sensibilidade, gera mais ira do que temor.
“Conspiraram contra ele para o matar.” (v.18)
José vai ao encontro dos irmãos obedecendo o pai, sem saber que está caminhando para uma emboscada. A linguagem lembra Caim e Abel. O ódio familiar cresce a ponto de planejarem um assassinato.
“Vamos ver em que vão dar os seus sonhos.” (v.20)
Essa frase revela o espírito da rebelião contra a soberania de Deus. Os irmãos acreditam que podem impedir os planos divinos.
“Judá disse: Não o matemos… Vendamo-lo…” (v.26-27)
Judá assume a liderança e, ao invés de matá-lo, propõe vendê-lo. Isso não é misericórdia, mas frieza comercial. Eles preferem lucrar do que se tornar culpados de sangue.
“Tiraram a túnica de José…” (v.23)
A túnica era símbolo do favoritismo. Tirada e manchada de sangue, ela engana Jacó e sela a mentira.
“José foi levado ao Egito.” (v.28)
Esse é o ponto de virada. Do poço à caravana, da túnica ao cativeiro, a jornada de José começa. Mas Deus está nesse caminho, embora ainda não seja mencionado explicitamente.
“Todas estas coisas me sobrevêm.” (v.36)
Jacó rasga as vestes e lamenta. Ele acredita que perdeu o filho, mas na verdade está vendo o início de um plano maior. O luto de hoje será a providência de amanhã.
A túnica longa ou de mangas era usada por príncipes e pessoas de posição nobre. A escravidão entre tribos era comum, e os ismaelitas negociavam com egípcios rotineiramente.
Literariamente, o capítulo é estruturado em paralelismos: os dois sonhos, os dois irmãos que tentam intervir (Rúben e Judá), e os dois disfarces (o poço e a túnica com sangue).
Deus está presente mesmo quando parece ausente. Ele começa grandes histórias de redenção em meio a traições, injustiças e dores.
José foi rejeitado pelos irmãos, vendido como escravo, humilhado… mas carregava consigo o que ninguém podia tirar: os sonhos de Deus.
Você está em um poço hoje? Está sendo injustiçado ou traído? Lembre-se: Deus começa Suas maiores obras em lugares inesperados.
Ore hoje para que sua fé permaneça firme, mesmo quando você não vê o fim do túnel. Os sonhos de Deus não são enterrados por túnicas rasgadas ou covas profundas.
Julio Cesar Ribeiro é pastor e professor. Possui graduação em Teologia, especialização e mestrado em Teologia Bíblica, mestrado em Teologia Cristã e atualmente cursa programa de Doutorado em Teologia Bíblica. Clique aqui para saber mais sobre o autor deste comentário.
